Vitinho e a americana
Luis Fernando Verissimo
Anos atrás, uma americana veio viver com uma família brasileira num desses programas de intercâmbio. Chamava-se Carol e era bonitinha. Ou bonitona. Grande, tipo esportiva, bochechas rosadas, 18 anos. Cheia de entusiasmo para saber tudo sobre o Brasil, seus costumes, seus rituais, seus ritmos, sua mágica. E louca para apreender o português o quanto antes. Vivia perguntando. Como se chama isto? E isto? Gostou muito da palavra “geleia”. Em inglês tinha “jelly”, e “jello”, e “gel”, mas “geleia” era diferente. “Geleia” parecia uma coisa muito mais importante e excitante do que “jelly”, “jello” e “gel”. Ela vivia dizendo “Geleia!” como se fosse o grito de guerra de uma causa. Algo como “Mandela!”. Ou uma exclamação de alegria, como “Hurray!”. Ou pelo menos o nome de uma comida bem mais exótica do que apenas geleia. Também gostava de “pimpolho”, “estuque” e “frangalhos”, e ficou encantada ao saber que “tchauzinho” queria dizer “little good-bye”.
Encantado pela americana ficou o Vitinho, amigo da família, pouco mais velho do que ela, que passou a convidá-la para sair. Dizia que assim ela treinaria seu português com ele e ele aperfeiçoaria o seu inglês com ela. A família não fez objeção. O Vitinho era um bom rapaz. Conheciam o Vitinho desde pequeno. E ele continuava pequeno. Dava no ombro da Carol. Seria uma ótima companhia para a americana, que com ele conheceria outras pessoas e em pouco tempo estaria integrada ao lugar - e falando bom português. Os dois pareciam se dar muito bem. Iam ao cinema, iam a festas, e ele a deixava em casa sempre no horário combinado. Marcavam o próximo programa, despediam-se - “Tchauzinho”, “Tchauzinho” - e só. A família não tinha por que se preocupar com o Vitinho.
Um dia, no café da manhã, a Carol perguntou:
- What is “lambo”?
Todos na mesa se entreolharam.
- What?
- “Lambo”.
Onde ela ouvira aquilo? O Vitinho usara numa frase. Estavam num barzinho, com uma turma, e o Vitinho dissera alguma coisa no seu ouvido. Na verdade, dissera a mesma coisa várias vezes. Ela não entendera, mas ficara intrigada com aquela palavra no meio da frase. “Lambo”. Gostara da palavra, que tinha um som meio misterioso. Podia ser o nome de uma cerimônia selvagem. Carol até se imaginara dançando no centro de um círculo de tambores nativos, iluminada apenas pela luz de tochas. Gritando “Lambo!” e “Geleia!”
Ninguém na mesa sabia o que era “lambo”. Ela tinha certeza que a palavra era aquela mesmo? Podia ser “tambo”. Mas por que o Vitinho usaria “tambo” numa frase no ouvido da americana, várias vezes? Não seria “tango”? Quem sabe “mambo”? Ou “rango”? Não, Carol tinha certeza que ouvira “lambo”. Foram procurar no dicionário. Não existia a palavra “lambo” no dicionário. Carol não se lembrava do resto da frase? Não, só guardara aquela palavra, com a sua conotação de mistério, cultura primitiva, deuses pagãos. O jeito era perguntar ao próprio Vitinho quando ele viesse buscá-la para saírem, àquela noite.
- Vitinho, o que é “lambo”?
Vitinho ficou paralisado. Engoliu em seco. Só conseguiu dizer:
- Ahn?
- “Lambo”. Você usou a palavra, ontem, e a Carol nos perguntou o que queria dizer.
- Eu disse “lambo”?
- Ela não se lembra do resto da frase, mas tem certeza que ouviu “lambo”.
- É... é... Não, eu, nós, eu estava querendo explicar pra ela como é o... Rai, Carol!
Carol tinha aparecido, pronta para sair. Vitinho estava salvo.
- Tchauzinho, mãe. Tchauzinho, pai! - disse Carol.
- Não voltem muito tarde.
O “pai” e a “mãe” de Carol estavam vendo televisão quando o “pai” disse de repente:
- Verbo lamber.
- O quê?
- Lambo. Presente do verbo lamber. Como em “eu te lambo toda”.
- Não! O Vitinho? Não!
- Por que não?
- Não acredito. O Vitinho?!
- Temos que tomar uma providência. Afinal, somos os responsáveis pela Carol, aqui. Imagina se o Vitinho passa da ameaça à ação? Pode criar um incidente internacional. E nós não podemos devolvê-la aos pais dela... lambida. Ainda mais pelo Vitinho!
Disseram para a Carol não sair mais com o Vitinho. Evitá-lo. Mas por quê? “Vitinho is so nice!” É “nice” mas não é para você, disseram. Não quiseram entrar em detalhes, mas tinham descoberto coisas sobre o Vitinho. Coisas perturbadoras, conexões inquietantes, algo a ver com magia negra. Culpa do nosso primitivismo. Ele não era uma boa companhia. Mais difícil foi convencer o Vitinho a não procurar mais a americana. Mas ele acabou desistindo, e quando a americana voltou para casa foi de novo aceito na família, que o conhecia desde pequeno. Mas não como antes. Todos passaram a olhá-lo de um modo diferente. E volta e meia alguém diz:
- Você, hein, Vitinho?
Meses depois da sua partida chegou um cartão-postal da americana. Uma fotografia dela com um cachorro, atrás uma mensagem carinhosa, de agradecimento e saudade, que terminava com “Geleia!” e assinada, em português: “Da sua filha Carol”. E um PS com o nome do cachorro: Lambo. “Para não me esquecer do Brasil.”
Domingo, 21 de março de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.